Ter e não ser; ser e não ter… Eis as questões

O dia? Vinte e seis de fevereiro de 2011. A hora? Aproximadamente 18h40. O local? A imensa comunidade localizada na Vila Santa Catarina, São Paulo. Para a mídia elitista e preconceituosa, simplesmente, favela Vietnã. 

Parecia um final de semana como outro qualquer: futebol, cheiro de churrasco, música sertaneja e funk carioca no volume máximo, crianças correndo de um lado para o outro… e calor; um calor causticante que, associado ao clima seco, tornava o simples ato de respirar profundamente desconfortável.

De súbito, a gritaria, o corre-corre; viaturas da PM em desabalada corrida; o mórbido, o funesto canto das sirenes a prenunciar mais uma tragédia na periferia. Logo em seguida o barulho ensurdecedor, o som estridente das hélices. Eram as aeronaves de combate da polícia militar, os helicópteros implementando movimentos típicos de operação de guerra.

Com o sistema público municipal de iluminação inoperante, o final de tarde antecipava a escuridão da noite. Nesse exato momento, os holofotes das aeronaves da PM disparavam em múltiplas direções suas intensas luzes, produzindo clarões repentinos que aumentavam, ainda mais, a sensação de pânico entre as pessoas que começavam a se aglomerar nas ruas. Ninguém (ou quase ninguém) sabia ao certo o que estava acontecendo. Então, um acre cheiro de fumaça, característico de pneus queimados, começou a impregnar a atmosfera… Mais gritaria, mais corre-corre, mais viaturas, e, agora, disparos. “Foi o helicóptero!!”  Disse alguém combalido pelo pavor. E o mais inacreditável é que o pobre ignoto estava coberto de razão. Soube-se, posteriormente, que os disparos, de fato, provinham da aeronave da PM: suprema irresponsabilidade, brutal desapreço pela vida. As ruas estavam repletas de mulheres e crianças! Afinal, quem era, ou quais eram os alvos daquela insana manobra militar? A essa altura o vozerio histérico já se transformava em gritos de estarrecimento.

Assassinos!” Bradavam alguns. “Mais, o que tá aconteceno?” Atônitos, inquiriam outros tantos. O tumulto transformara-se em revolta. Instaura-se a sublevação urbana. Fogueiras espalham-se pelas esquinas, veículos são incendiados… Mais viaturas, mais holofotes, mais disparos. Num sábado como outro qualquer, um átimo do Inferno de Dante desenovela-se em meio às ruas e vielas daquela paupérrima comunidade.

Devaneio, narrativa ficcional? Não, pura crônica do cotidiano; fatos densos o suficiente para serem empregados nos mais movimentados roteiros de Spike Lee. Aos poucos, as informações, boca a boca, foram chegando; e com elas aumentava o distúrbio, o sentimento geral de revolta. “Tão invadindo as casa e metendo bala!” Ouvia-se alguém gritando à distância. “Já mataro um!!”.  “Tão tacando fogo em tudo…”.  Era a assuada da turba, trazendo as últimas notícias. Mães desesperadas chamavam seus filhos. “Entra moleque filho-da-mãe!”. Curiosos contumazes transformavam-se em alvos humanos. Alguns riam, outros choravam, outros tantos riam e choravam; de qualquer maneira, todos movidos pelo estarrecimento, pela histeria.

A origem. Dia sete de fevereiro de 2011, cerca de 16 homens, segundo a polícia, fortemente armados invadem uma joalheria situada no shopping Morumbi, realizando o assalto. As autoridades envolvidas no caso, contudo, não souberam precisar o produto do roubo. Diligências e investigações foram feitas, e, após reconhecimento através de testemunhas, alguns integrantes do grupo que realizou o assalto foram identificados e localizados supostamente escondidos dentro da comunidade conhecida como Favela Vietnã.

Numa ponta, o aparelho repressor do estado, noutra, a criminalidade; e, bem no meio, no fogo cruzado, na beligerância incrustada no cotidiano da periferia, a população indefesa, o cidadão comum, o trabalhador perplexo e estarrecido. Ninguém pediu viaturas ou helicópteros, mas eles estavam lá; no fundo, ninguém gosta de “bandido”, mas eles estão lá, transitam de um lado para o outro absolutamente à vontade, incólumes, já como partes integrantes da paisagem: pela manhã, muitas vezes, acordamos embalados pelo mágico canto dos bem-te-vis, contudo, também atormentados pelo vozerio embaixo das janelas a declarar, sem o menor constrangimento, feitos e peripécias no mundo do tráfico, no submundo das drogas.

É assim que as crianças nesses recantos urbanos vão crescendo, acumulando pequenos traumas, sequelas emocionais quase imperceptíveis, porém crônicas e determinantes. Elas crescem sorridentes, brincando de soltar pipas, de mocinho e bandido; diuturnamente testemunham dramas, tragédias familiares – muitas vezes inconfessáveis -, ao mesmo tempo em que são expostas a um verdadeiro bombardeio de promessas de esperança eterna, através da propaganda consumista neoliberal: “Seja um vencedor, conquiste todas as mulheres do mundo, bebendo Coca-Cola, tomando cerveja e comprando o carro importado da moda“. Então, as crianças crescem, a realidade prevalece e a esperança ilusória some junto com a fumaça dos cigarros de maconha. Meninos e meninas que sonhavam em se transformar em jogadores de futebol e modelos famosos estão, agora, prontos; altamente qualificados para o dignificante trabalho em joalherias de shopping center.Alguém aí ouviu falar desse caso? Foi o que pensei…“.


As flores, portanto, têm que brotar do asfalto. Ou isso, ou nossas almas estarão irremediavelmente pavimentadas

Sei que as flores não nascem no asfalto; mesmo porque não conheço ninguém que alimente o grande sonho de ser o jardineiro do inferno. Além disso, por que engendrar tamanha crueldade? Não quero, contudo, falar das flores. Afinal de contas, elas não me fizeram mal algum. As palavras me interessam.

Por exemplo: esperança. É uma palavra boa; soa bem. Gosto de pronunciá-la. Nascido no asfalto, não teria, a princípio, motivos para ser esperançoso. Entretanto, pensando bem, se nascer no asfalto é prerrogativa das flores crédulas, sou uma ímpia flor que exige, mesmo assim, seu quinhão de esperança; seu bocado de bons auspícios.

Pensamento, ideias… São palavras também; podem ser tão eloquentes quanto a bala de um fuzil. Tudo acaba virando moda nas correntes do pensamento discricionário. As ideias são como serpentes. Quem terá, pois, o antídoto para o veneno injetado?

Fardas. Palavra sinistra. Sinistros artefatos do passado, sombriamente espreitando os “tempos modernos”. Lembrar as fardas virou moda na boca daqueles que imaginam ter o dom da palavra. Contudo, quem sangrou? Quem foi desterrado? Músicos, políticos, atores… Decerto! Esqueceu-se de mencionar, porém, a legião dos miseráveis. Os massacrados, inconscientes e alienados. Embaixo das pontes, dos viadutos. Dentro dos barracos. Na periferia: nas casas de alvenaria! Nos apartamentos mal-acabados; aleivosas armadilhas que balançam… balançam e caem! Nas repartições, malbaratando no transporte coletivo. Ternos amarrotados, vidas atoladas em dívidas… Estão em todo canto! Mentes ensanguentadas. Almas desterradas. Ouço seus gritos no silêncio. Quem lhes concederá a anistia? Ah, turba sequiosa de palavras!

Especialistas do silêncio, nem mesmo Graciliano bebeu tanto na amarga fonte da angústia. Vidas Severinas combalidas por Maquiavel. Não queiram ensinar aos mestres da dor onde ardem as feridas. Hoje as cicatrizes escondem as mazelas. O espelho eletrônico comercializa a sujeira. Ávidos, consumimos tudo sem tirar a embalagem. O que fazer quando a dor despertar, cobrando nossas dívidas?

Provocar… É uma palavra. Também é um verbo. Eu provoco. Tu fazes provocações – que também é uma palavra e um substantivo. Feminino substantivo, transexuais palavras! As palavras podem ser substantivadas, abjetas; contundentes objetos, esmagando cabeças incautas.

“Nowadays!”. O espelho eletrônico, refletindo nossa imagem aprisionada, reina absoluto. Quero, pois, provocá-lo. Acordem anarquistas deslumbrados! Será que as fardas maquiavélicas venceram a guerra? Quinhentos anos de história, serviram apenas para assentar e erguer mais uma filial do inferno? As flores, portanto, têm que brotar do asfalto. Ou isso, ou nossas almas estarão irremediavelmente pavimentadas.


Um dia cresceremos, produziremos nossas próprias raízes; desesperadamente, então, buscaremos saídas, caminhos ou atalhos que nos levem ao topo do pote

Aquele menino ardiloso costumava, todo santo dia, invadir o quintal do vizinho para pegar goiabas, limões ou, simplesmente, para experimentar a indescritível sensação de “poder”; poder ir além, ultrapassar os limites do mundo adulto; poder ignorar regras enfadonhas; poder apenas.

Numa dessas incursões, certa vez, pegou o galho de uma árvore. Somente um irrisório galho de árvore. Levou-o, cuidadosamente, para casa e resolveu colocá-lo dentro de um pote de maionese com água, mais ou menos, até a metade. A princípio, não tinha nenhum propósito; era apenas um gesto não calculado, aleatório. Logo em seguida, assentou o recipiente com a água e o râmulo na janela da cozinha – talvez porque ali fizesse bastante calor, ou porque era arejado, bem alumiado. Pouco importava; não havia razões, procedimentos orientados pela lógica, métodos ou quaisquer outros instrumentos de normalização típicos de gente grande.

Contudo, rapidamente, esqueceu-se do ignoto episódio e voltou à preponderância exuberante da protagonista meninice. Bolinhas de gude, estilingues, guerras de mamona, peladas nos campinhos de terra amassada: cronômetros naturais a contar a passagem do tempo, alterando percepções, mudando o entendimento. E foi assim que, de brincadeira em brincadeira, um dia, lembrou-se do pote, da água e, claro, do singelo râmulo.

Na cozinha, olhando na direção da janela, notou que alguma coisa estava diferente; nada de errado ou esquisito, apenas diferente. Ali, na beirada da janela, não estava mais um simples galho de árvore; várias raízes haviam brotado e ramificado. Ficou surpreso! A visão daquelas incipientes e alvacentas raízes impressionaram-no. Afinal, era criança. Tenra idade, não tinha a menor ideia de que os vegetais eram capazes de se “auto-ramificar”; não daquela maneira, não dentro de um modesto pode de maionese… com água até a metade.

Era a vida brotando! E como poderia saber que a vida era capaz de produzir raízes? Como poderia saber que a vida pode se multiplicar, alterando sua própria configuração, sua própria estética? Nem tão pouco poderia conceber que o mundo precisava de raízes; que o mundo inventava e, ferrenhamente, apegava-se às suas próprias raízes, imaginárias ou reais. Não sabia que raízes podem engrandecer a alma, mas, também, podem aprisioná-la. E, a despeito de tão absolutamente arrebatadora constatação, as raízes nascem, crescem e morrem; e continuarão crescendo até se exaurirem, tal e qual o bicho-homem.

Então, teve uma ideia: tirou o galho do pote e foi plantá-lo no quintal da modesta casa onde morava. Contudo, era criança; tinha que retornar às rotineiras criancices: bolinhas de gude, mamonas, estilingues, peladas… O cronômetro natural era inelutável, circunspeto e implacável.

Certa ocasião, porém, perseguindo uma tarântula gigantesca, foi parar no quintal; o mesmo quintal onde, tempos atrás, plantara o galho de árvore. Assim, novamente, defrontou-se com o fenômeno da mudança. O que, antes, fora râmulo transformara-se, agora, em árvore; e a árvore crescia, não parava de crescer, inacreditável, milagroso crescimento… De tal modo vertiginoso, chegando a causar deslumbre.

Os tempos eram difíceis; a ditadura militar impunha restrições, agruras. Mas, crianças são imunes ao vírus da política. O menino e seus amigos não sabiam, não precisavam saber nada sobre essas idiossincrasias de gente “mal-crescida”, gente “mal-resolvida”. Aliás, uma vez, o menino perguntou a um de seus amigos, “O que é essa tal de dentadura que meu irmão vive falando?”; questão prontamente respondida pelo amigo, “Minha vó tem uma dessas. Eu sei, por causa que vi dentro do copo com água!”.  Não sabiam, não faziam a menor ideia. Apenas sentiam que era difícil e, muitas vezes, doloroso crescer. Era difícil ser criança; viver como criança num mundo adulto atormentado com problema inventado de adulto. Portanto, presenciar o refulgente momento de transformação do singelo râmulo em árvore sólida, a reafirmar o inexorável espetáculo da vida, trouxe-lhe novas percepções. Inadvertidamente selara-se uma espécie de pacto de amizade entre o matreiro menino e aquele velho galho de árvore; um pacto mudo em que o saber era a senha e o conhecimento diuturno e gradual as inestimáveis oferendas.

A árvore continuaria crescendo. Transformar-se-ia num frondoso pinheiro. O menino descobriria que somos como galhos dentro de um pote de maionese. Um dia cresceremos, produziremos nossas próprias raízes; desesperadamente, então, buscaremos saídas, caminhos ou atalhos que nos levem ao topo do pote. No entanto, o mistério sempre residirá na corda bamba das experiências cotidianas. Nunca saberemos ao certo quando fincar ou extirpar raízes. Se tivermos sorte, experimentaremos sensações relativamente claras de como parar ou como recomeçar.

Na verdade, sei apenas que a mente precisa de expansão. Em algum momento, o pote de maionese tem que se transformar na “lata do poeta”, e, ali, a alma deverá brotar e ramificar-se até o grande infinito.


Definitivamente a violência está na moda. Ocupou espaço, obteve destaque em todas as mídias. Presente em todas as falas, em todos os textos – e subtextos! –, contaminando imagens e cenários, arraigou-se no inconsciente coletivo. Tornou-se parte inalienável do dia-a-dia: respiramos violência, processamos seus funestos insumos, transformando-os em alimento de “mais-violência”. Contudo, será que temos consciência efetiva sobre a necessidade vital de reflexão acerca de suas possíveis origens?

De modo geral, quando o assunto vem à tona alguns pressupostos clássicos imediatamente são levantados: miséria, crescimento urbano desordenado, gestão ineficaz das questões públicas, concentração de riquezas em parcelas diminutas da sociedade, traço essencial característico do lado mais obscuro e primitivo da índole humana, e por aí afora. Não obstante a procedência lógica de tais argumentos, se pensarmos bem perceberemos algo de superficial e periférico nesse discurso fácil quase sempre predominante.

Sem dúvida, qualquer pessoa que não tiver acesso ao mínimo necessário à manutenção da dignidade humana (saúde, educação, moradia, emprego…) estará propensa a assumir atitudes extremadas. Entretanto, como explicar a violência extrema praticada, por exemplo, por indivíduos, jovens ou não, oriundos das camadas mais elevadas da chamada pirâmide social? Muitas vezes não apenas em decorrência de anomalias ou patologias psíquicas. Mas por “esporte”, por um sentimento sádico e perverso de diversão: indigentes queimados vivos na calada da noite – ou não! – em plena praça pública; colegas de escola alvejados com projéteis de grosso calibre; salas de cinema invadidas por futuros “advogados” portando e disparando poderosas metralhadoras; netas, com seus rostinhos angelicais e insuspeitos, eliminando os próprios avós pela razão mais torpe entre todas as razões torpes, o dinheiro; pais arremessando as próprias filhas pela janela, aparentemente, sem motivo algum, ou pelos motivos mais monstruosamente prosaicos.

Também não podemos estigmatizar o “terceiro mundo” – com seus sistemas precários de gestão institucional – com o rótulo da suprema selvageria mundial. Seria, no mínimo, inócuo. Senão, como explicar as mais diversas, intensas e primitivas manifestações de violência, brotando, ao longo da história, exatamente naquelas sociedades consideradas mais avançadas em relação ao aspecto do desenvolvimento dos valores humanos? Sociedades cujos princípios assentam-se na cultura do crime organizado, em sistemas políticos totalitários como o nazismo ou o fascismo, na intolerância racial, ou na predominância de referências comportamentais centradas em signos bélicos, armamentistas.

Por outro lado, se nossos ancestrais primitivos travavam ferrenhas batalhas dispondo de suas próprias ossadas, hoje não ficaríamos muito longe desse comportamento se fosse levado em conta que fomos capazes de produzir e fomentar instrumental tecnológico poderoso o bastante para aniquilar o Planeta algumas centenas de vezes.

O homem é violento, afinal de contas, por quê? De fato, a esse respeito, podemos conjeturar. Logo nos primórdios de nossa infância, somos bombardeados com toneladas e mais toneladas de processos, a nos orientar segundo padrões de comportamento norteados por estímulos, concepções e valores assentados na agressividade: ouvimos historinhas de ninar nas quais o hediondo Lobo Mal, obstinado, tenta, a qualquer custo, devorar menininhas inocentes que perambulam a esmo pelas florestas encantadas; nossos corações são acalentados com doces cantigas cujo principal objetivo consiste em nos ensinar que devemos adormecer o mais rápido possível, caso contrário a Cuca virá, implacavelmente, em nosso encalço; nossos heróis usam espadas, armas letais capazes de cuspir raios fulminantes, são mestres em artes marciais, especialistas na “arte” da esperteza e da malandragem.

Ora, entramos na adolescência, passamos à fase adulta e o quadro vai apenas se agravando: “vença” de qualquer maneira; seja o número um, tomando a melhor cerveja, fumando o melhor cigarro, acumulando polpudas contas bancárias (de preferência nos mais discretos paraísos fiscais); o automóvel torna-se uma extensão de nosso próprio corpo, sinônimo de sucesso, um verdadeiro símbolo fálico! “E não se esqueça! Carro velho pra quê?” Então, somente um “pênis motorizado” (se possível importado) não é mais o suficiente. “Consolide sua posição de vencedor, seu território. Compre um iate e navegue em sua própria ilha paradisíaca!”.

O sujeito passa a ser governado pela necessidade de TER. Ter cada vez mais. SER torna-se irrelevante e SENTIR desnecessário, um absoluto sofisma. Assim, não importa mais a produção do pensamento, pois as idéias são desprezíveis. É preciso produzir bens tangíveis, bens materiais para serem conquistados e consumidos pelo gigantesco exército de “vencedores” que sempre estarão comprometidos com a infinita busca pela ascensão social. Desse modo, o irresistível apelo consumista – atrelado a um sentimento visceral de competição – constrói o isolamento, intensifica o egoísmo, aniquila o apreço à vida, colocando-a em segundo plano.

Em última instância, quem pratica a violência pretende impor a própria imagem; inconscientemente ou não determina uma relação de poder espúria e sórdida com sua(as) vítima(as). Em termos dialéticos, podemos pensar que a relação de poder discricionário entre Estado e sociedade, patrões e assalariados, criminosos e vítimas é basicamente a mesma. A diferença, em tese, ocorre no campo da manipulação dos códigos legais ou em sua operacionalização marginal.

Sendo assim, fica bastante clara a necessidade de reverter as expectativas comportamentais vigentes. É preciso substituir esse modelo sedimentado no individualismo crônico. Os grupos humanos – a despeito das vertentes do pensamento ideológico – devem convergir, precisam concentrar esforços efetivos direcionados à necessidade de substituir as estruturas arcaicas da supremacia, do ideal imperialista, das castas de privilegiados, por sistemas cuja orientação lógica leve em conta a cooperação ao invés da competição e a interação em vez do egoísmo. O mundo não precisa de “reis”, de “rainhas”. O infame descaso diante da miserabilidade absoluta é pura sandice, e invocar heróis salvadores da pátria para sua debelação sempre constituirá um debalde esforço. “Então, quem deve ser o mocinho, quem deve ser o bandido em nossa triste história?”.